XXI Semana Brasileira do Aparelho Digestivo

Dados do Trabalho


Título

Hepatotoxicidade relacionada à amiodarona: um relato de caso

Resumo

Apresentação do caso: Sexo feminino, 77 anos, hipertensa, ex-tabagista, em acompanhamento pela cardiologia devido à insuficiência cardíaca, em uso de amiodarona, enalapril e hidroclorotiazida. Foi admitida na emergência com náuseas e êmeses intensas, sob a suspeita clínica de colelitíase. USG de abdome não identificou litíase biliar. TC de abdome e pelve, por sua vez, revelou sinais de hepatopatia crônica, com acentuado aumento difuso do coeficiente de atenuação do parênquima hepático, compatível com lesão hepática induzida por amiodarona. Apesar da suspensão do medicamento, paciente refere atualmente epigastralgia associada à dispepsia, além de prurido crepuscular, entretanto, sem sinais, ao exame físico, de hepatopatia crônica.

Discussão: A doença hepática induzida por drogas permanece ainda como um diagnóstico diferencial de outras lesões hepáticas, em razão da inexistência de marcadores séricos específicos para tal entidade. A amiodarona, apesar de não ser a principal droga associada à hepatotoxicidade, deve ser considerada como importante causador de esteatose em pacientes em uso desse antiarrítimico. O presente caso suscita a discussão a respeito de um efeito adverso incomum, mas preocupante, que pode persistir mesmo após a retirada da medicação. A saber, apenas 3% dos pacientes em terapia apresentam sintomas de toxicidade hepática, sendo grande parte inespecíficos, como náusea, mal-estar e dor no quadrante superior direito. A amiodarona, por interferir na beta-oxidação de lipídios, pode levar a um padrão histológico similar à esteatose de causa alcoólica, diferindo, via de regra, apenas no achado macrovesicular. O médico deve estar atento a alterações séricas nos parâmetros hepáticos, sendo de bom tom avaliar os valores de ALT e AST após 6 meses do início da terapia e depois anualmente. A droga deve ser descontinuada caso haja aumento de, pelo menos, duas vezes das transaminases ou devido ao desenvolvimento de hepatopatia. A progressão para cirrose ocorre muito raramente.

Comentários finais: A amiodarona é um fármaco com múltiplos efeitos adversos perigosos, incluindo não somente a hepatotoxicidade - cujo desfecho no caso ainda permanece incerto -, mas também a danos pulmonares, tireotóxicos, oculares ou mesmo dermatológicos, especialmente em pacientes idosos. Assim, médicos gastroenterologistas devem estar atentos a sinais e sintomas que possam indicar danos ao fígado em pacientes em uso de amiodarona, além de monitoramento constante.

Área

Gastroenterologia - Fígado

Autores

Lucas Pereira Trevisan, Pedro Matos da Câmara, José Ademar dos Santos Júnior, Antônio Gomes da Silva Júnior, Miguel Isaias Lopes Silveira, Marcos Vinícius Jales Lima de Queiroz, Rayane Lunara Catarino Dantas de Medeiros, Daniel Marques da Silva, Júlia Millene Gomes Magalhães de Lacerda, Athina Gomes Maia, Luiz Felipe Nunes Palhares, Phillip Anderson Silva Avelino, Marianna Santos Tinoco da Costa Britto, Lívia Medeiros Soares Celani, Vinícius da Costa Duarte